Não estou errado se transcrever o sentimento de indignação das pessoas que vivem na Terceira, quando se apercebem das potencialidades “adormecidas” que esta ilha evidencia.
As obras obedecem à máxima dos dez anos, e muitas estão desprovidas de estratégia e de visão, inclusive, algumas atentam contra a Ilha, como é o caso das obras de requalificação da Via Rápida.
A apregoada importância da geo-posição da Terceira no conjunto arquitectónico do Arquipélago não se faz sentir nos transportes nem na economia que resulta de e para o exterior da Região. A ligação à diáspora repele mais do que atrai. Estamos atrelados ao tempo do espectador.
Angra não consegue servir-se do facto de ser Património Mundial para seu proveito económico, turístico e social, a sua riqueza militar não é utilizada, o seu pólo do conhecimento – Departamento de Ciências Agrárias (DCA) – não consegue diversificar-se como centro exportador de saberes, e, principalmente, não se motiva o empreendorísmo privado.
A juventude “foge” daqui e não se criem ao nível local programas de atractividade para a fixação de jovens.
A capacidade produtiva na agro-pecuária carece de adaptabilidade à realidade da Terceira. Uma realidade que precisa de jovens, tecnologia e investigação.
Não se percebe porque não se faz uma melhor Agricultura tendo em conta o DCA, um verdadeiro “armazém” de sabedoria que poderia estar conectado com o mundo agrícola. Temos bons Técnicos mas estão limitados na sua acção porque não existem projectos de interligação com a Agricultura.
A ruralidade e a naturalidade são duas vantagens comparativas que vão sendo substituídas pelo betão.
A naturalidade ambiental da Ilha e, em especial, dos seus espaços de natureza, deve constituir um pólo de atractividade para o seu progresso, todavia, está ainda pouco aproveitada.
A diversidade biológica da Ilha atendendo à sua especificidade assume-se como um património natural que deve ser conservado, protegido e dado a conhecer não só aos visitantes, mas também, às populações locais.
Interessa, neste sentido, perceber-se que existem, e estão em crescimento, novos públicos para estas questões ambientais, procurando os Açores, essencialmente, por uma razão sobretudo de natureza.
Também, a ruralidade Terceirense deve assumir-se como um forte factor de competitividade, por exemplo, o meio natural da Ilha e a especificidade da produção, decisivamente acrescentam valor comercial aos produtos, pela associação da biologia e da geografia com os benefícios para a saúde humana daí decorrentes.
A ruralidade da Ilha Terceira não deve ser esquecida nem está fora de moda, constitui uma base para o surgimento de novas actividades socioeconómicas, através da tradição e da inovação.
A Ilha Terceira é detentora de enormes potencialidades socioeconómicas das quais enunciei algumas, porém mais parece uma espécie de “Bela Adormecida”.
Autor: António Ventura |